O ministro da saúde Nelson Teich,
alinhado com o presidente Jair Bolsonaro, afirmou que o governo prepara
diretrizes para reduzir o isolamento social, uma vez que não há “crescimento
explosivo” da COVID-19 no Brasil. No entanto, a análise do ministro não se
sustenta quando confrontada com as estatísticas. Mesmo diante da
subnotificação, um gargalo reconhecido pelas autoridades de saúde brasileiras,
o país está entre os 15 países com o maior número de casos no mundo. Para
entender a evolução da doença é preciso olhar para a taxa de mortalidade, o
número de pessoas contaminadas a partir de um caso confirmado e como é o ritmo
no aumento no número de mortes.
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© Miguel Schincariol/AFP
Inúmeras covas foram abertas em cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, epicentro da COVID-19 no Brasil
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Ao
se comparar o número de mortos, 3.670 óbitos pela COVID-19, com a população
brasileira pode se chegar a uma conclusão equivocada. Não basta fazer a simples
comparação entre população do país e números de mortos. O percentual em
comparação com a população de 212,6 milhões pode parecer inexpressivo. Os
Estados Unidos, com população de 331 milhões, têm 40 mil mortes. No entanto, ao
olhar para os números é importante entender em que ponto da curva de evolução
da pandemia o Brasil está – o que indica é que ainda não estamos no pico da
pandemia. A base de comparação, os primeiros casos nos Estados Unidos, foram confirmados
em 1º de janeiro. Já no Brasil, essa confirmação veio quase dois meses depois,
em 26 de fevereiro.
Um estudo
estatístico feito por grupo de pesquisa do curso de medicina do Centro
Universitário de Belo Horizonte (UniBH) em parceria com o Comitê de
Enfrentamento à COVID-19 em Minas, aponta para o R-0, um coeficiente que indica
o número de pessoas que podem ser infectadas a partir de um paciente positivo.
O número demonstra que a pandemia está sob controle nos países em que o R-0
fica abaixo de 1. Nesta lista, já estão Suíça, Espanha, Áustria, Itália e
Israel. No Brasil, no entanto, o R-0 é 2,6. Com esse número seria necessário
aumentar as ações de isolamento social para que haja controle efetivo da
doença.
“Não se pode
olhar apenas para o número absoluto. É preciso olhar a evolução do padrão da
curva ao longo do tempo”, afirma o professor do UniBH Bráulio Roberto Gonçalves
Marinho Couto. O pesquisador trabalha com números do CDC Europeu que apontam
que 78% dos casos confirmados da COVID-19 estão concentrados em 16
países.
MORTALIDADE
Outro número
preocupante foi apresentado pelo Monitora COVID-19, sistema que agrupa e
integra dados sobre a pandemia do novo coronavírus no Brasil, gerenciado pela
Fiocruz. Os números mostram que as mortes provocadas pela doença têm dobrado,
em média, num intervalo de cinco dias no Brasil. Comparativamente, nos Estados
Unidos e no Equador, países com taxas altas de disseminação da epidemia, o
intervalo para essa duplicação, em período similar, seria de seis dias. Na Itália
e na Espanha, oito.
Os dados se referem às
semanas de 29 de março a 4 de abril, 5 a 11 de abril e 12 a 16 de abril. São
Paulo é o epicentro da pandemia no país, mas a evolução da doença é preocupante
na Região Norte, marcadamente nos estados de Rondônia, Pará e Amapá, e no
Nordeste, no Piauí, Alagoas, Ceará, Maranhão e Pernambuco.
Também
preocupante é a taxa de mortalidade pela COVID-19 no Brasil. Na França, Itália,
Inglaterra e Espanha, a taxa está em torno de 10%. No Brasil, em torno de 5%,
mais do que o dobro da taxa verificada na China, 2%, conforme descrito por
pesquisadores.
Os
infectologistas alertam que não é o momento de flexibilizar as medidas de
isolamento social. “Nas grandes e médias cidades esses números nos mostram que
o distanciamento ainda é fundamental e que eventual flexibilização tem que ser
feita com muita cautela, muita responsabilidade e sempre seguindo a
epidemiologia local, ou seja, se você tem condições de começar uma
flexibilização, comece paulatinamente e meça sempre para que a qualquer
aumento, indício de descontrole para você manter a rédea curta ou um pouco mais
frouxa com base em números e dados”, afirma o presidente da Sociedade Mineira
de Infectologia, Estêvão Urbano.
O
especialista alerta para a chegada do inverno, que torna mais propícia a
disseminação do vírus. “Temos que pensar que estamos entrando no outono e
inverno, qualquer flexibilização precipitada seria muito preocupante e poderia
trazer consequências muito trágicas, diz. Ele ressalta que é preciso que as
autoridades tenham firmeza. “Há que se ter bom senso. Entendemos a dificuldade
da quarentena, mas é importante a preocupação de não deixar a bolha estourar e haver
um colapso e cada local vai ter que tomar as decisões com base no seu cenário.
Mas sempre com muita responsabilidade”, completa Estêvão Urbano.
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