Os túneis de desinfecção
desenvolvidos a fim de evitar a contaminação pelo novo coronavírus tem gerado
divergências entre especialistas. O Conselho Regional de Medicina (Cremeb)
repudiou o uso destes equipamentos tanto em áreas públicas quanto em hospitais.
A decisão foi embasada num parecer da Câmara Técnica de Medicina do Trabalho.
Com 15 tuneis já instalados em todo o estado, a Secretaria de Saúde do Estado
(Sesab) informou que as estruturas continuaram em funcionamento.
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Conselho questiona eficácia do equipamento - Foto: Shirley Stolze |
De acordo com o
vice-presidente do Cremeb, Júlio Braga, as consequências do uso do equipamento
ainda são desconhecidas e podem gerar riscos aos usuários. “Não há nenhuma
demonstração de eficácia do equipamento. Qualquer coisa que não tem efeito
benéfico documentado, você já parte do principio que ela pode fazer mal”,
pontuou.
Braga ressaltou que o
Conselho não é contra a utilização do equipamento, contanto que seja feito
dentro de um projeto de pesquisa, respeitando os critérios necessários. “A
pessoa tem que fazer o projeto, submeter a um comitê de ética, solicitar a
participação das pessoas, e estas devem dar o consentimento para participar de
um projeto de pesquisa”, ressaltou.
O posicionamento do
Conselho foi embasado pelo Parecer da Câmara Técnica de Medicina do Trabalho,
emitido em 13 de maio, que ressalta a ausência de fundamentação científica na
eficácia das câmaras. O documento se ampara no posicionamento da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Conselho Federal de Química que
alertaram para a falta de dados de segurança “no que se refere a dose,
concentração e frequência de utilização de produtos químicos (peróxido de
hidrogênio, hipoclorito de sódio, amônia quaternária ou ozônio) para utilização
direta em pessoas”.
As câmaras instaladas no
Instituto Couto Maia, Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Vale dos Barris,
Hospitais Santo Antônio (Obras Sociais Irmã Dulce), Espanhol, Subúrbio, Ernesto
Simões Filho e Martagão Gesteira, além do Hospital Costa do Cacau, em Ilhéus,
Calixto Midlej Filho, em Itabuna, São Vicente e Prado Valadares, em Jequié, e
Riverside, em Lauro de Freitas, foram desenvolvidas pelo Senai-Cimatec.
O Diretor de Operações
da instituição, Luis Alberto Breda reconheceu que se trata de um projeto de
pesquisa desenvolvido para ser usado apenas em hospitais, e por profissionais
paramentados com Equipamentos Individuais de Segurança (EPI’s). “Entendemos a
posição do Cremeb, mas deixamos claro que é um projeto experimental e não
comercial de venda de tuneis. É um projeto que de fato precisamos comprovar a
eficácia, e sentir o grau de eficácia disso versus um eventual grau de reações
adversas que a gente também está monitorando”, pontuou.
Breda esclareceu que a
ideia do projeto é reduzir a carga viral ativa no momento de se retirar os
Epi’s, quando o profissional corre alto risco de se contaminar. “Antes do
profissional retirá-los, passa pelo túnel e recebe a névoa com uma solução de
hipoclorito. Se a água sanitária vendida em mercado tem a concentração de 2 a
2,5%, a concentração que utilizamos é de 0,25%”, disse.
De acordo com ele, os
diretores dos hospitais que receberam os túneis estão cientes de que se trata
de um projeto experimental e que serão colhidos os termos de consentimento dos
profissionais submetidos aos túneis. “A fase da pesquisa começa exatamente
agora, vamos fazer análises qualitativas para avaliar se tem reações adversas e
qual o grau dessas reações”. De acordo com Breda, em 30 dias a instituição deve
dar respostas sobre a eficácia dos túneis.
Para o diretor médico do
Hospital Espanhol para a Covid-19 - primeiro a receber um túnel de desinfecção
- e pesquisador chefe do Senai-Cimatec Roberto Badaró a pesquisa é segura por
que utiliza o hipoclorito de sódio altamente diluído. Ele conta que a primeira
fase do estudo já foi concluída. “Observamos 73 funcionários, que em sua
maioria passavam duas vezes por duas pelos túneis, para saber do que eles se
queixavam. Nenhum apresentou asma ou alergia, por exemplo. A única queixa que 40
pessoas tiveram é de que o cheiro era forte e depois se acostumaram, seis
pessoas tiveram uma irritação no olho por que entraram inadvertidamente sem os
óculos de proteção”, explicou.
A próxima fase do estudo
deve começar na próxima semana. 100 pessoas farão parte do estudo. Todas devem
ter diagnóstico negativo para a Covid-19. “ 50 vão passar a utilizar a câmara e
outras 50 não, daí vamos medir a taxa de conversão para o coronavírus e dizer
se a câmara serve ou não serve”, explicou Badaró.
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